27/09/10

Drão

Somou as tantas ligações que ela não atendeu, os emails não respondidos, multiplicou pelas promessas que não cumpriu e decidiu, tomaria o primeiro ônibus e bateria na sua porta. Ela haveria de atendê-lo e haveria de escutá-lo e mais, haveria de respondê-lo e correspondê-lo. No ônibus folheava em vão um Dostoievsky que trazia na mochila, mas sua leitura estava nas entrelinhas das últimas conversas que tiveram, no pano de fundo pra esta próxima, tão próxima conversa.

Bateu a porta, ela saía do banho com a toalha nos cabelos e seu olhar misturou surpresa e fuga. Pediu que entrasse sem muita cerimônia. Era como se sua voz dissesse “não sinta-se em casa, por favor.” Jogou a toalha sobre o sofá como quem aponta um lugar para a visita não se sentar. Ele se acomodou como pôde no sofá, mas por dentro algo não lhe cabia e buscava o jeito certo de sair, procurava o início do fio que se embolava no seu estômago para puxá-lo garganta a fora. Sabia que era o ponto mais difícil de encontrar, que vomitar o restante seria mais fácil então se entregou ao mais óbvio.

“Sandra, precisamos conversar.” Falou ainda trêmulo. “Claro, se você diz” disse irônica e desinteressada. O desinteresse dela o penetrou fundo cortando as veias de ansiedade que lhe trouxeram até ali. Cogitou virar as costas e sair, mas de tão longe não iria voltar. “Por que você não atende minhas ligações? Fugir dos seus problemas não os resolvem, e além do mais, eu não quero ser um problema seu, só quero conversar contigo.” Ela silenciou sem deixar claro se era falta de resposta ou pergunta pouca em conversa que deveria ser mais profunda. Ambos sabiam que ela devia mais do que ligações não atendidas. Com isso o fio se soltou e seu estômago devolveu tudo o que lhe doía, e as palavras foram despejadas sobre ela. Enquanto falava sentia que se distanciava daquilo, era a escalada do abismo em que ela o deixara, mas ele o escalava do lado contrário em que ela se encontrava. A distância o entristecia mas aliviava, não procurou mais ponte entre eles. Terminou de falar, estava aliviado, estava dito e estava longe. Sentia um alívio tão grande que não quis esperar a chuva amiudar, encarou São Pedro de frente e deixou na enxurrada o cheiro dela, a poeira dos abismos que escalara e no dia seguinte não se lembrou mais da cor do vestido dela, muito menos do esmalte.

2 comentários:

Drika disse...

triste e lindo

Thais Correia disse...

acredito tanto nesses fins,