Finda a discussão, vencidos todos os argumentos, os olhares pesavam calados, a mão dela sobre o antebraço dele já tão incerta, como se pedisse desculpas por não caber mais nas mãos dele. Aqui o tempo se arrasta, cada olhar se demora procurando um novo motivo pra insistir. Se sabia inútil, os próximos passos seriam sempre rumo a distância um do outro e mesmo que se encontrassem num futuro incerto, estariam distanciados por todos os passos que caminhassem depois daqui. A força da presença dela e de tudo que caminharam juntos até aqui impedia que ele desse esse primeiro passo e a iminência do fim daquele momento, do fim da presença dela, do início da sua vida sozinho pesava em lágrimas que se formavam no fundo da sua garganta como um rio que nasce. Como ela se viraria sem ele? Como se livraria do frio que só ele sabia que ela sentia às 3 da manhã quando enquanto sonhava ela chutara as cobertas para o chão. Quem lhe faria a receita de macarrão repleta de segredos que ela adorava e comia até passar mal. Sentiu pena daquela mulher já tão envolta numa aura de solidão e abandono e apesar da incerteza, do choro na garganta e da quarta-feira, dos carros no semáforo, senhores lendo jornal na fila do barbeiro, futebol, buzinas e mulheres, a vida acontecia. Eles também, o fim e o começo são só o meio.
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