18/05/11

O bom pastor

Enquanto aguardava as alegorias desse imenso carnaval do fim do mundo entrar na avenida, comia bíblia e putas baratas todos os domingos após o culto. Vestidos simples e coloridos largados sobre o púlpito, o paletó que ele insistia em deixar dobrado e cuidadosamente largado sobre o altar. Fazia ali mesmo, sob os olhos do deus de madeira feito em peça única da carnaúba, presente de um bispo da capital que investiu muito para abrir o templo naquela cidadezinha. Enquanto se vestiam, ele abria o zíper de sua bíblia e retirava um tanto qualquer de dinheiro, sempre o suficiente para pagar o programa e o silêncio dessas meninas. Apontava a porta dos fundos e se retirava com o paletó no ombro organizando a camisa. Só um cachorro o viu sair do templo, trancando a porta com o paletó sobre os ombros e a bíblia debaixo do braço. Foi andando para casa que ficava a poucos quarteirões e decidiu ousar por um caminho novo, seguindo um rabo de saia que avistou pelo canto dos olhos. Não tinha medo, se julgava uma criatura protegida por deus e principalmente pela fama de pastor do bairro. Ninguém tocaria nele. O que ele não sabia é que em alguns bairros nem deus chega, de tão longes ou quando chega o escuro é demais, a hora já tarda, barulho de criança e cachorro soltos na rua e acaba que deus se confunde. Poderia ser assim explicado o assalto que o pastor mal percebeu acontecer. Ofereceu sem resistência a bíblia com sua pequena fortuna dominical, ao lhe pedirem a carteira. Não houve tempo para explicar, três facadas lhe penetraram a costela e ainda pôde ouvir os ladrões rindo de quem oferece uma bíblia a um assaltante. Não levaram nada. O pastor morreu agarrado a sua bíblia e no dia seguinte matérias contraditórias contaram sua história nos jornais.

0 comentários: