04/08/11

A gosto

Abriu os olhos, o despertador dizia 7:45 – 01 de agosto – Um arrepio lhe percorreu os ossos. Sua aversão pelo mês de agosto crescia a cada ano. O mês do cachorro louco, como diziam, das ventanias exageradas que levam os bebês do colo de mães mais distraídas, agosto era a poeira invencível de cima dos móveis. Quando contara desse seu temor ao mês de agosto, uma amiga lhe disse que talvez ele teria morrido em agosto, numa vida passada. Como não acreditava em vidas passadas, passou a ter certeza que tudo isso era uma previsão muda de seu coração dizendo que morreria sim em agosto, naquela vida. Naquele ano ou no seguinte, ou cinquenta anos depois, morreria em agosto. Era um mês pesado, de dias densos como explicava a meteorologia tentando justificar as ventanias que varriam todo o cone sul e a loucura do tempo. Lia as notícias como quem via ali um anúncio do seu fim de mundo particular. Em agosto os jornais são mais apocalípticos, em toda notícia lhe cabia a exclamação: “São os fins dos tempos” à qual seu pai concordava com acenos de cabeça. Envelhecia um ano inteiro nos primeiros quinze dias de agosto, arrastando suas superstições. Se cuidava excessivamente em agosto, carregava casacos, guarda-chuva, comprimidos, crucifixos na bolsa, ia ao médico, fazia exercícios. Envelheceu, agosto após agosto. Casou-se. Perdeu um pouco do medo do calendário. Poderia-se dizer até que passou a viver normalmente, indiferente do mês. Não via mais o fim do mundo na primeira folha do jornal. Era marido cuidadoso, pai amoroso. Todos sabiam de suas antigas cismas com o calendário e todas as outras que carregou e também das que inventou depois de velho. Morreu anos depois, num mês de agosto, em sua lápide a mensagem meio enigmática para as gerações que viriam: Morreu como se fosse dezembro.

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